O <i>Mundial</i> em África

Manuel Gouveia

Há milhões de anos, em África, o Homem – erguendo-se e através do trabalho – descobriu-se Humano.

E foi nessa África, pela mais circunstancial das razões – a correlação de votos numa eleição interna – que a FIFA decidiu montar o Campeonato do Mundo de Futebol de 2010.

Um evento que concentra em si tantos dos aspectos contraditórios que marcam o mundo de hoje: a alienação e a superação, o circo e a festa, a hipervalorização do individual e a afirmação do colectivo, o patrioteirismo e o sentimento de identificação nacional, o vale tudo e o fair-play, a comercialização do desporto e o mesmo desporto como factor de aproximação entre os povos.

Quando, depois de um mês, Iniesta, com uma desmarcação e um remate certeiro, decidiu o vencedor do evento, e tudo parecia ter acabado, faltava afinal o mais importante.

Faltava Mandela.

Quando veio, e ficou completa a festa, trazia a seu lado não apenas Graça Machel mas Tambo, Slovo, Sisulu, Hani, Samora, Cabral, Neto, Lumunba. Os herdeiros de Spartakus, que enfrentaram e derrotaram o colonialismo e o apartheid, contando com a activa solidariedade da União Soviética, de Cuba e de todo o movimento anti-imperialista mundial.

O terrorista, como esteve até 2008 catalogado pelos EUA, o preso 46664 durante 27 anos, o líder do braço armado do ANC, o primeiro presidente democraticamente eleito da África do Sul, Nelson Mandela, voltava ao estádio onde realizou o primeiro comício depois de se ter libertado das cadeias do apartheid e onde, três anos depois, discursou no funeral de Chris Hani, o assassinado Secretário-geral do Partido Comunista da África do Sul.

E o que centenas de milhões de pessoas por todo o mundo aplaudiram foi o Homem e os seus 92 anos de vida e luta.

E assim, daquele Estádio ao lado do Soweto, África voltou a recordar-nos a importância da verticalidade para a condição humana.



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